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A Datilógrafa do Rés do Chão

A Datilógrafa do Rés do Chão

12
Mai21

Parar e sentir

Filipa Pinto

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Ultimamente, tenho acordado todas as manhãs perto das 7 horas com alguma intranquilidade vinda de uma noite agitada. Hoje não foi exceção e, quando meti as pernas fora de cama, fui invadida por uma necessidade quase fisiológica de sentir alguma tranquilidade que me é oferecida em momentos de conexão com alguns objetos, cheiros, cores ou memórias. Tal não foi a minha surpresa quando meti os pés na rua e fui assaltada por um cheiro caracteristicamente familiar.

De imediato, como se tivesse tocado num botão de transporte, senti-me transportada para a minha escola da primária e para o caminho que o meu pai costumava utilizar, no meio de abetos e natureza, para fazer as suas caminhadas matinais perto do café do Sr. Américo. Inspirei o cheiro a chuva e terra molhada ficando com o alento necessário para começar um novo dia.

 

28
Abr21

Um elefante na sala

Filipa Pinto

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Há atitudes que não nos custam só um coração, custam-nos uma alma, dói-nos lá. 

Se soubessem como uma única ação ou inação perante determinada situação nos pode magoar tanto como espetar uma faca afiada diretamente no peito, pensavam mil vezes antes de desferir golpes tão profundos e perigosos na alma. Antes de deixar uma cicatriz tão grande, mas tão grande que basta alguém nos olhar profundamente para deixar de ser invisível e passar a ser um elefante na sala impossível de esconder. 

13
Abr21

Meu amor, acordei ferida

Coletânea de Cartas

Filipa Pinto

 

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27 de Março de 2018

Meu amor,

Acordei ferida. Aquela dor dilacerante no peito que me acompanha e perfura sempre que vislumbro os teus olhos nos meus sonhos abriu-se durante a noite. Sonhei que conversávamos de mãos dadas na esplanada de um café e te contava todas as aventuras e desventuras do meu percurso até agora. E tu, sorrias para mim com esses dentes perfeitos, e rugas de expressão que os meus dedos conhecem tão bem. Ouvias-me como só tu sabes fazê-lo, fazias-me perguntas entusiasmado em saber quem esteve na minha vida durante a tua ausência. Se me fizeram feliz, se me senti mulher em toda a minha plenitude e como eu merecia, se os amei tanto como te amo, o que aprendi depois de partirem e se o sentimento foi mais forte.
 

 

10
Abr21

A missão não é leve, mas é simples

Filipa Pinto

 

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A missão não é leve: cada homem é responsável pelo mundo inteiro.

- Clarice Lispector

 

Estaciono o carro na beira do passeio junto ao café e carrego no botão preto perto da manete das mudanças para abrir o vidro elétrico. O vento gelado de uma tarde típica de abril abraça-me do outro lado e inclino o rosto para frente, fechando os olhos num gesto de apreciação. Escuto um burburinho ainda de olhos fechados e, com a curiosidade genuína de alguém perspicaz, abro as pálpebras deparando-me com quatro ciclistas a conversar junto à esplanada de caras completamente despidas. 

Um grito monstruoso ameaça brotar de dentro de mim quando noto, desviando o olhar ligeiramente para o lado, quatro pessoas devidamente afastadas umas das outras a comer um lanche tardio, sentadas nas cadeiras brancas ao lado dos anormais de rodas. 

 

09
Abr21

Página em branco

Filipa Pinto

 

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Sento-me na cama, aconchego-me com o cobertor cor de rosa e olho para a página em branco da minha máquina de escrever moderna, debatendo-me com os pensamentos agitados de mais um dia que chegou ao fim.

Deixo os dedos quase roçarem as letras do teclado, mas perco o foco e viro o rosto em direção ao corredor escuro. A custo, consigo vislumbrar o relógio preto em forma de gato pendurado na parede em frente ao quarto. Entrego-me à passagem lenta dos ponteiros e ao seu som perturbador. Percebendo o meu interesse, malvados e implacáveis, devolvem-me o olhar e eu, envergonhada pela falta de persistência, ordeno os meus olhos retornarem às teclas suaves que me aguardam ansiosas.

 

08
Abr21

Este é o tempo

Filipa Pinto

 

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Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam.

 

Sophia de Mello Breyner Andersen

 

Um tempo sem duração e sem coração. Um tempo difícil de perceber e destingir na monotonia dos dias iguais uns aos outros. Um tempo que não demora a fazer-se sentir com veemência num quotidiano distópico. Um tempo esmagador e impiedoso.

 

07
Abr21

A fragilidade e a finitude da vida

Filipa Pinto

 

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Alguém suspirar pela última vez na nossa presença é uma experiência absolutamente aterradora e marcante. Lembramo-nos dela quando a vida nos mostra a sua fragilidade e finitude nas mais diversas formas. Acompanha-nos de mãos dadas até ao jardim repleto de flores numa típica manhã primaveril, sorri-nos do outro lado da rua através de um rosto enrugado e desgastado pelo tempo que nos cumprimenta com regularidade, conseguimos senti-la na bola que uma criança pontapeia em direção à estrada perigosa, apinhada de carros numa correria desenfreada para chegarem ao seu destino e, ainda a vislumbramos, nos olhos aterrorizados de uma mulher grávida a quem dão a notícia de um cancro repentino que lhe está a roubar a vida de forma silenciosa diante do seu próprio nariz. Mas também é palpável no quotidiano tranquilo de um homem do campo a lavrar a terra logo pela manhã. 

 

06
Abr21

Expectativa versus Realidade

Filipa Pinto

 

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De forma mais ou menos consciente, criamos uma imagem das pessoas que nos rodeiam, principalmente daquelas com quem temos mais afinidade e mantemos uma relação de amizade próxima. Esta imagem idealista é formada, não só pelo que nós observamos e analisamos no outro, mas também por uma perceção individual nossa. E, quando a perceção que temos juntamente com os dados que recolhemos, colide com aquilo que as pessoas realmente são, começa o processo da expetativa versus realidade. Iniciado o processo, debatemo-nos com o resultado duro que daí advém.

 

 

05
Abr21

A Nódoa de Café

Parte 1

Filipa Pinto

 

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Começou por me perguntar as horas, mas a princípio não percebi que se estava a dirigir a mim. O vento gelado de uma típica manhã cinzenta de Novembro chicoteou-me a cara com uma brutalidade só conhecida pelos madrugadores da cidade e, embora o silêncio pairasse sobre a estação ferroviária escura de Santa Apolónia, a minha mente exausta e entorpecida pelo frio ainda vislumbrava a pilha de papéis deixada ontem na secretária de madeira do escritório da Polícia Judiciária. Repetiu novamente a pergunta e, desta vez, consegui elaborar uma resposta dando uma espreitadela ao meu relógio de pulso.

- São 4 horas e 45 minutos – respondi da forma mais educada possível, tendo em conta o meu estado fatigado, embora sem olhar uma única vez para a voz rouca e masculina que me abordara. 

Absorta nos meus pensamentos, comecei a remexer na mala à procura do bilhete e de um cachecol de caxemira azul marinho para cobrir o pescoço em pele de galinha.

 

 

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