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A Datilógrafa do Rés do Chão

A Datilógrafa do Rés do Chão

13
Abr21

Meu amor, acordei ferida

Coletânea de Cartas

Filipa Pinto

 

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27 de Março de 2018

Meu amor,

Acordei ferida. Aquela dor dilacerante no peito que me acompanha e perfura sempre que vislumbro os teus olhos nos meus sonhos abriu-se durante a noite. Sonhei que conversávamos de mãos dadas na esplanada de um café e te contava todas as aventuras e desventuras do meu percurso até agora. E tu, sorrias para mim com esses dentes perfeitos, e rugas de expressão que os meus dedos conhecem tão bem. Ouvias-me como só tu sabes fazê-lo, fazias-me perguntas entusiasmado em saber quem esteve na minha vida durante a tua ausência. Se me fizeram feliz, se me senti mulher em toda a minha plenitude e como eu merecia, se os amei tanto como te amo, o que aprendi depois de partirem e se o sentimento foi mais forte.
 
- Como poderia ser seu tolo? – perguntei-te eu com o olhar cheio de amor e ternura. De seguida, sorri-te e coloquei a tua cara entre as minhas mãos para te dar um beijo há tanto desejado por ambos. Tu retribuíste intensamente puxando-me para ti, de tal forma que, julguei que os cafés fossem cair da mesa em protesto. Mas não. Tudo foi perfeito, simétrico e o tempo ficou ali preso nos nossos lábios como se nada pudesse correr mal quando estamos juntos.
 
Tenho saudades tuas e do que ainda não vivemos, mas estás constantemente a desaparecer por entre o nevoeiro matinal, tal como D. Sebastião desapareceu um dia para nunca mais voltar. Durante séculos o esperaram, contaram lendas sobre ele, fizeram-se poemas, canções e ele alheio a tudo isto, de mala às costas e cavalo montado, qual príncipe desejoso de desbravar novos caminhos, fez a sua viagem e nunca mais voltou.
 
Às vezes, no silêncio da noite e por entre lágrimas perdidas, desejava que fosses como ele. Evaporavas-te durante o dia, mas há noites, ó se há! Aquelas noites que regressas junto à minha cabeceira, soprando-me de hálito fresco e doce junto ao pescoço, palavras mágicas que abrem feridas no meu coração tão só e ansioso por te ter só mais uma vez.
 
Estás sempre a deixar-me e eu sempre a receber-te. Consegues compreender que isso não é justo, não consegues? Porque não ficaste só desta vez? Queria conversar e ter mais tempo contigo, queria escutar o bater do teu coração contra o meu para depois nunca mais acordar. Porque se é apenas em sonhos que me é permitido ouvir a tua voz, é nesse mundo onde tudo é possível que quero permanecer para o resto da minha vida.
 
Com amor,
Filipa

 

 

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