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A Datilógrafa do Rés do Chão

O blog pessoal, os contos e as reviews de uma cabeça no ar assumida, amante de livros, séries, pintura acrílica e escrita.

A Datilógrafa do Rés do Chão

O blog pessoal, os contos e as reviews de uma cabeça no ar assumida, amante de livros, séries, pintura acrílica e escrita.

Inimigos Sem Rosto

Parte 1

03.04.21

Inimigos Sem Rosto

Parte 1

por A Datilógrafa do Rés do Chão

www.theodysseyonline.com

Tinha acabado de pousar a chávena de porcelana em cima da mesa de cabeceira, quando uma aragem gélida entrou de rompante pela janela aberta do quarto de Inês. A brisa marítima do Rio Tejo acariciou o seu rosto e, com agrado, inspirou-a suavemente até sentir o sabor adocicado da água na sua boca. Naquela noite estava um céu estrelado livre de qualquer nuvem agoirenta.
Afastou a manta estendida em cima das pernas e decidiu levantar-se, dirigindo-se até à sala onde se encontrava a sua mãe Helena. Deparou-se com ela dormitando tranquilamente encostada para trás na velha poltrona do seu pai. Tinha a televisão acesa numa das suas telenovelas preferidas. Aproximou-se.
- Mãe, não vais para a cama? – perguntou abanando-a levemente de forma a obter uma resposta sem a sobressaltar. Estava um silêncio absoluto na divisão e Helena não deu sinais de a ter ouvido, apesar de murmurar algumas palavras impercetíveis. Inês curvou-se para a frente a fim de a conseguir ouvir melhor.
- Leonardo, Leonardo, onde estás? – murmurou Helena num tom aflitivo.

Quando Inês se preparava para a abanar novamente com o intuito de a despertar deste pesadelo, Riscas entrou numa correria desenfreada, típica de uma caçada noturna felina e saltou por cima da poltrona, atingindo em cheio a cabeça de Helena. Abalada por este ataque surpresa, deu um salto para a frente e acertou violentamente com o seu braço direito no peito de Inês que estava curvada diante de si. Inês aterrou de costas no chão e o gato cinzento malhado, de olhos pregados em ambas, aterrou elegantemente no sofá como se nada tivesse acontecido.
- É surreal como uma criatura tão pequena consegue causar um estrago deste tamanho – resmungou Inês ao mesmo tempo que se punha de pé e esfregava o peito para recuperar o ar – Estava a tentar acordar-te sem que te desse um ataque cardíaco, mas o Riscas achou-te demasiado tranquila.
Com as mãos a tapar a cara, Helena continuou sem responder, começando a soluçar compulsivamente. Lágrimas brotavam por entre os dedos das suas mãos.
- Mãe - sussurrou Inês aproximando-se dela novamente – Está tudo bem mãe, vai passar... Não fiques assim, por favor... - suplicou-lhe. Inês tinha agora um nó na garganta, sabia exatamente o motivo daquela reação. Ajoelhou-se e abraçou a mãe que tremia violentamente.
Quando finalmente Inês se afastou dela, esta já estava mais calma, mas Inês não tinha conseguido fazer dissipar a sensação de angústia e dor que o episódio lhe causara. Helena olhou-a com meiguice e agarrou-lhe as mãos delicadamente.
- Esta quarentena está a deixar-me pior, desculpa querida – disse Helena limpando uma lágrima da cara de Inês – Vamos deitar-nos?
- Vamos, mas se precisares de alguma coisa durante a noite chama-me, por favor – respondeu Inês preocupada com o ataque de choro da mãe.
Helena consentiu, levantou-se, ajudou Inês a pôr-se de pé e deu-lhe as boas noites. Inês desligou a televisão e foi verificar se estava tudo trancado enquanto a mãe se dirigia ao quarto e apagava as luzes para dormir. O gato, satisfeito com o seu malabarismo, seguiu-a e deitou-se aos pés da sua cama, começando a fazer a limpeza das patas dianteiras.
Inês entrou no seu quarto, fechou a janela e deitou-se apenas com a luz de presença a iluminar o espaço. Escutou o silêncio à sua volta. Era nesta altura do dia, quando a sua mente podia divagar sem distrações, que sentia uma ansiedade difícil de afastar a assaltar os seus pensamentos.
Inês sacudiu-se e os cabelos caíram-lhe sobre o rosto. Um medo crescente ameaçava brotar das suas entranhas a qualquer altura e não queria ter de tomar outro ansiolítico. No entanto, a emoção foi mais forte e o seu coração começou a acelerar com uma velocidade alucinante. Nesse momento, colocou a mão no peito e sentiu o pijama ligeiramente húmido. Tinha de se controlar.
Durante alguns minutos, Inês inspirou e expirou de forma profunda com alguma dificuldade. As costelas doíam-lhe e uma leve enxaqueca ameaçava aparecer. Devagar, a sua respiração foi estabilizando. E, subitamente, um véu escuro caiu como uma cortina sobre si envolvendo-a.
O cenário mudou. Inês arregalou os olhos e endireitou-se no chão frio. Por baixo de si, a cama tinha desaparecido e no seu campo de visão surgia uma noite escura como breu. Ergueu-se e tateou à sua volta numa tentativa de compreender onde estava. As suas mãos embateram numa superfície plana e dura. Quanto mais procurava uma saída, mais via que não existia nenhuma e um sentimento claustrofóbico começou a invadi-la. Estava numa sala fechada, sem janelas e sem portas. Com os olhos fechados e agachada de exaustão, Inês gritou até as cordas vocais não serem capazes de emitir mais nenhum som.
Alguém se riu e Inês abriu os olhos. A sala estava iluminada e uma dúzia de pessoas sorridentes vinham na sua direção abrindo os braços com a clara intenção de lhe tocar. Estavam sem máscara, sem luvas, totalmente desprotegidas e Inês não tinha como se salvar. Ia ser infetada e morrer num hospital ligada a máquinas, sem puder ver a sua mãe, o seu irmão e os seus amigos. Gritou mais alto, pediu para pararem, mas os desconhecidos já se encontravam em cima de si. Tocavam-lhe na cara, tossiam uns para cima dos outros e beijavam-na na face. Inês sentia-se a sufocar gradualmente no meio destes estranhos.
Com a impotência a aflorar-lhe o espírito, fechou os olhos e rezou. Rezou e chorou como jamais tinha feito na vida. Quando pensava estar tudo perdido, sentiu uma mão na sua testa e ouviu um sussurro longínquo. Voltou a abrir os olhos e as pessoas tinham desaparecido.
A voz familiar voltou a insurgir-se agora num tom mais agudo e percetível.
- Inês, acorda! – gritou a sua mãe Helena abanando-a freneticamente.
Aos poucos, Inês foi regressando ao seu quarto e reconheceu os olhos verdes como esmeraldas da sua mãe. Uma onda de alívio percorreu o seu corpo e suspirou profundamente.
- Tentei acordar-te várias vezes, mas não vinhas a ti – disse Helena desviando uma madeixa de cabelo suado da testa de Inês – Estava a começar a ficar preocupada.
- Não parecia um pesadelo, parecia real – respondeu Inês ofegante.
- O que é que estavas a sonhar? – interrogou-a a mãe com as rugas da testa franzidas em sinal de alarme. Inês precisava desesperadamente de mudar de assunto, se não a mãe podia vir com a conversa do psiquiatra outra vez.
- Coisas sem nexo.... Sonhei que estava numa praia e um tsunami engoliu tudo. Estava a afogar-me – mentiu rapidamente – Não foi nada de especial, está tudo bem. Já sabes como eu sou quando sonho com água, fico logo aflita porque não sei nadar e, além disso, catástrofes naturais deixam-me aterrorizada desde pequena.
- Tens a certeza? – perguntou-lhe mais uma vez. A mãe de Inês sabia quando ela mentia, mas tinha de continuar a parecer convincente, caso contrário a conversa do médico ia voltar a vir à baila.
- Mãe, estou encharcada de medo por causa de uma onda gigante, só isso! – insistiu Inês, agora com uma voz mais firme e convincente.
- Desta vez, vou escolher acreditar em ti, mas se precisares de alguma coisa estou no meu quarto. E vai mudar de pijama, ainda ficas constipada! – disse-lhe Helena com preocupação. Trémula, deu-lhe um beijo e saiu.
Quando percebeu que estava sozinha no quarto, Inês atirou-se para trás e meteu as mãos na cara. Não queria voltar a adormecer, mas sentia-se exausta. Abriu a gaveta da mesa de cabeceira, espreitou lá para dentro e encontrou o comprimido que procurava: diazepam. Fraco, mas forte o suficiente para relaxar os seus músculos e a meter a dormir profundamente durante mais algumas horas.
Em vez de o beber com água, meteu-o debaixo da língua para surtir um efeito quase imediato. Eram quatro horas da madrugada. Passados vinte minutos, Inês já descansava pacificamente.

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