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A Datilógrafa do Rés do Chão

O blog pessoal, os contos e as reviews de uma cabeça no ar assumida, amante de livros, séries, pintura acrílica e escrita.

A Datilógrafa do Rés do Chão

O blog pessoal, os contos e as reviews de uma cabeça no ar assumida, amante de livros, séries, pintura acrílica e escrita.

A Nódoa de Café

Parte 1

05.04.21

A Nódoa de Café

Parte 1

por A Datilógrafa do Rés do Chão

o comboio majestoso.jpg

Começou por me perguntar as horas, mas a princípio não percebi que se estava a dirigir a mim. O vento gelado de uma típica manhã cinzenta de Novembro chicoteou-me a cara com uma brutalidade só conhecida pelos madrugadores da cidade e, embora o silêncio pairasse sobre a estação ferroviária escura de Santa Apolónia, a minha mente exausta e entorpecida pelo frio ainda vislumbrava a pilha de papéis deixada ontem na secretária de madeira do escritório da Polícia Judiciária. Repetiu novamente a pergunta e, desta vez, consegui elaborar uma resposta dando uma espreitadela ao meu relógio de pulso.

- São 4 horas e 45 minutos – respondi da forma mais educada possível, tendo em conta o meu estado fatigado, embora sem olhar uma única vez para a voz rouca e masculina que me abordara. 

Absorta nos meus pensamentos, comecei a remexer na mala à procura do bilhete e de um cachecol de caxemira azul marinho para cobrir o pescoço em pele de galinha.

 

Enquanto esperava pelo comboio de primeira classe onde viajaria pela Linha do Norte rumo a umas férias no Porto, ergui lentamente a cabeça e reparei no rosto do homem que, até então, não movera um único músculo. Estava carregado com rugas de expressão e tinha uns olhos azuis esverdeados. Envergava um sobretudo castanho escuro bastante distinto, um chapéu bege e uns sapatos de verniz. O homem possuía sem dúvida uma postura de aristocrata e pareceu-me familiar. No entanto, não consegui lembrar-me de onde.

O barulho inconfundível do comboio a chegar rompeu pela estação. Pedi licença ao velhote, dirigi-me à plataforma e aguardei. O homem, aturdido pelo ruído ensurdecedor da repentina chegada, desequilibrou-se. Tentei correr e socorrê-lo, mas já me encontrava demasiado afastada do local onde o tinha deixado e, para sua sorte, outro homem apanhou-o pelos cotovelos antes deste sucumbir ao chão – agora húmido devido a uma chuva impiedosa que começara.

- O Senhor está bem? Ia dando uma grande queda! - gritou o outro homem em sinal de alarme.

- Graças a si, estou! Como poderei recompensá-lo? - disse o velho com gratidão.

- Se me deixar levá-lo ao seu compartimento, eu ficaria bem mais descansado – disse o outro com sinceridade e preocupação patentes na sua voz. Olhou para mim e pediu sem esperar por uma resposta, mas com delicadeza – A senhora importa-se de me dar uma ajudinha? - acedi com prontidão ao seu pedido, aproximei-me e com cautela segurei num dos braços do velho que me pareceu um tanto ou quanto enjoado.

- O meu nome é Eduardo Sá e sou médico. Muito prazer em conhecê-la! - acenei com a cabeça, sorri e disse-lhe que me chamava Pilar Garcia. O médico utilizava um casaco aberto e uma camisa branca por baixo de um polo azul escuro. Tinha uma barba bem aparada e olhos castanhos claros. O seu aspeto era cuidado e a sua estatura robusta, atraente e jovial.

Naquele momento, o barulho do vapor a sair despertou-me e não consegui deixar de reparar na elegância da locomotiva a carvão parada à minha frente. A sua cor vermelha lembrava um rubi majestoso e embora tivesse apenas quatro carruagens, era o ideal para uma viagem com todos os luxos necessários. 

Entretanto, um trovão insurgiu-se no horizonte e o revisor apressou-se, ajudou-nos a colocar o aristocrata em segurança dentro do comboio e aceitou os nossos bilhetes. Pedi-lhe para transportar as nossas bagagens e subimos para a carruagem sem mais demoras. Depois de instalarmos o velho na cama, o Doutor Eduardo procedeu a um exame ligeiro para verificar se estava tudo bem. Sorriu-me gentilmente, não proferiu mais nenhuma palavra e saiu. O velho adormeceu de imediato e eu sem nada a fazer ali com a chuva e o frio a entranharem-se nos meus ossos, dirigi-me ao compartimento número dois para me secar e descansar.

(...)

Ao acordar, verifiquei o meu relógio e passavam poucos minutos das 7 horas. O pouco tempo que dormira tinha sido corrompido por pesadelos com ratos, um animal de que sempre sentira repulsa.

Irrequieta, endireitei-me na cama e olhei pela janela. Um cenário paradisíaco de árvores e folhagem de todas as cores invadia o meu campo de visão. Ao começarmos a passagem por uma ponte com um rio fabuloso por baixo de si, senti uma súbita nostalgia invadir-me, lembrando esta mesma paisagem da última vez que me dirigi ao Porto. Só consegui pensar que estava finalmente a caminho da fabulosa lareira dos meus avós e do cheiro a croissants quentes feitos logo pela manhã. Mal podia esperar, mas enquanto tinha de o fazer, decidi levantar-me e ir em direção à sala de refeições. 

No corredor da carruagem, deparei-me com uma mulher loura e jovem a sair do compartimento ao lado do meu. Baixa, mas indiscutivelmente vistosa, a mulher misteriosa tinha uns olhos cor de esmeraldas e os lábios carregados de batom vermelho. Olhámos uma para outra de forma curiosa e cumprimentei-a.

- Bom dia. O meu nome é Pilar Garcia. Vi o Doutor Eduardo a entrar nesse quarto ontem à noite, sabe dizer-me se ele já está acordado? Peço desculpa pela indelicadeza, mas gostaria de lhe dar uma palavrinha - a mulher olhou para mim com um olhar presunçoso, sorriu e esticou-me a mão a fim de me cumprimentar.

- Bom dia. Sou a esposa do Doutor Eduardo e não tem de se desculpar, eu já estou ao corrente do que se passou. O meu nome é Alice - apertámos as mãos cordialmente - e é um prazer conhecê-la! Temo que nos tenhamos desencontrado na plataforma. Ele já está a tomar o pequeno-almoço, se quiser pode acompanhar-me.

Enquanto atravessávamos a sala de estar calmamente e em tom de conversa, gritos de aflição começaram a invadir o espaço providos da sala de refeições. Os instintos, treinados para este género de situações, deram de imediato ignição às minhas pernas e desatei numa correria desenfreada com Alice num estado de histerismo no meu encalço.

Será que não havia um único dia em que não teria de exercer a minha profissão e pudesse estar em paz? Tremi de medo pelo que poderia encontrar dali a meros instantes. No meu âmago, eu sabia que algo de absolutamente terrível estava prestes a acontecer.

 

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