Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Datilógrafa do Rés do Chão

O blog pessoal, os contos e as reviews de uma cabeça no ar assumida, amante de livros, séries, pintura acrílica e escrita.

A Datilógrafa do Rés do Chão

O blog pessoal, os contos e as reviews de uma cabeça no ar assumida, amante de livros, séries, pintura acrílica e escrita.

A fragilidade e a finitude da vida

07.04.21

A fragilidade e a finitude da vida

por A Datilógrafa do Rés do Chão

cbaea46c0ff8b2cbaf4f1b62885a123e.jpg

Alguém suspirar pela última vez na nossa presença é uma experiência absolutamente aterradora e marcante. Lembramo-nos dela quando a vida nos mostra a sua fragilidade e finitude nas mais diversas formas. Acompanha-nos de mãos dadas até ao jardim repleto de flores numa típica manhã primaveril, sorri-nos do outro lado da rua através de um rosto enrugado e desgastado pelo tempo que nos cumprimenta com regularidade, conseguimos senti-la na bola que uma criança pontapeia em direção à estrada perigosa, apinhada de carros numa correria desenfreada para chegarem ao seu destino e, ainda a vislumbramos, nos olhos aterrorizados de uma mulher grávida a quem dão a notícia de um cancro repentino que lhe está a roubar a vida de forma silenciosa diante do seu próprio nariz. Mas também é palpável no quotidiano tranquilo de um homem do campo a lavrar a terra logo pela manhã. 

O fim, como assim lhe chamam, está no banal e no extraordinário, mas persiste em se encontrar connosco. Insiste em marcar o seu território com um grito dado a plenos pulmões. E é ai, nesse instante, em que nos falta o ar e somos arrebatados por uma vontade de respirar que toma controlo do corpo e da alma. 

Na maioria dos casos, é necessário olhar o fim nos olhos de alguém para compreender o prazo de validade da vida e, para desejar com todas as forças que o nosso último suspiro, seja o primeiro por um tempo interminável. Entendendo o facto desse tempo ser um tempo sem uma realidade definida, sem uma fita métrica, podendo terminar no inicio, no meio ou com muita sorte, no fim da nossa jornada.

Pela via das dúvidas, caso o amanhã seja o fim, dirijo-me todos os dias à varanda do meu rés do chão falso e inspiro o ar matinal com o sol quente a bater-me no rosto como se a manhã seguinte não viesse a existir.

É uma marca que não se vê, mas que se sente no peito e nos acompanha durante o nosso percurso, até as luzes do palco se apagarem e a cortina fechar pela última e derradeira vez.

 

6 comentários

Comentar post

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Na mesa de cabeceira:

No ecrã:

Calendário

Abril 2021

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930